Texto por Marina Menegassi, Pedro Torres e Vinicius Costa. 26/10/2021

Texto por Marina Menegassi, Pedro Torres e Vinicius Costa. 26/10/2021

A década de 70 foi um período muito interessante para a produção artística brasileira. Sendo a única década que passou inteiramente sob o regime da ditadura militar, nas suas fases mais duras até o início da abertura política no governo Figueiredo (1979-1985), a produção artística do período se desenha como uma resposta aos anseios sociais e políticos de uma população reprimida.

Brasília, na sua recém completa primeira década de existência, ainda tem nesse período, evidentemente, uma produção musical dominada por artistas vindos de outras regiões. Mas é nesse momento que começa a surgir a primeira geração de artistas, poetas e músicos retratando a vida dos moradores do planalto central, em uma produção essencialmente brasiliense.

A música nas Ruas

Os festivais de música foram uma força pulsante do contexto brasiliense durante a década de setenta e oitenta. Vários nomes importantes da indústria fonográfica nacional iniciaram seus trabalhos no contexto de eventos como o Festival de Música Popular do Centro de Estudos Universitários de Brasília e o Concerto Cabeças. Foi a partir desses eventos que começou a se formar uma identidade cultural própria de Brasília, que culminaria no surgimento dos grandes grupos de rock dos anos 1980.

Grandes personalidades da música brasileira, desde cantores até compositores, instrumentistas e produtores, ganharam projeção durante os festivais de rua da capital.

Clodo, Climério e Clésio

Clodomir, Climério e Clésio Ferreira, irmãos piauienses radicados em Brasília, são compositores fundamentais na MPB. Chegaram a gravar discos com suas composições, mas os irmãos afirmam que não eram um trio, que apenas "tocavam juntos”.

Em 1972, no Festival de Música do CEUB, Clodo ganhou o primeiro lugar com a composição Placa Luminosa e o segundo com a canção Sino, sinal aberto, interpretadas pelo grupo Matuskelas.

Raimundo Fagner em 1973. Autor desconhecido

Raimundo Fagner em 1973. Autor desconhecido

Fagner

Raimundo Fagner Cândido Lopes, natural de Orós, no Ceará, veio para Brasília no ano de 1970 para estudar Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília. Iniciou sua carreira musical participando do Festival de Música Popular do Centro de Estudos Universitários de Brasília (CEUB) com a canção "Mucuripe", uma parceria com o também cearense Belchior, e classificou-se em primeiro lugar.

"...aqui em Brasília é importante, pois faz parte da minha história. Foi o lugar que me acolheu quando sai do Ceará para viver, fazer faculdade, participar do festival do Ceub, tudo isso está muito ligado. A minha história em Brasília é muito forte." - Raimundo Fagner

Oswaldo Montenegro apresentando a canção Agonia, composta por Mongol. A música ganhou o 1º lugar no Festival da Nova Música Popular Brasileira: Foto: acervo Rede Globo, exibição no programa Fantástico em 24 de agosto de1980.

Oswaldo Montenegro apresentando a canção Agonia, composta por Mongol. A música ganhou o 1º lugar no Festival da Nova Música Popular Brasileira: Foto: acervo Rede Globo, exibição no programa Fantástico em 24 de agosto de1980.

Oswaldo Montenegro

Oswaldo Viveiros Montenegro nasceu em 15 de março de 1956, no Grajaú, Rio de Janeiro. Em 1971, vem morar em Brasília com a família, cidade que abraça e que se torna um tema frequente em suas letras. Nesse período começa a estudar música. Aos 14 anos, passa a participar dos festivais da capital e conhece nomes como José Alexandre, Raimundo Marques, Ulysses Machado e Madalena Salles - figuras que o acompanharam ao longo de sua carreira. Nesse período também começa a fazer seus shows e a compor suas próprias canções.

Ganhou grande repercussão nacional com seu sucesso Bandolins, de 1979, classificada em terceiro lugar no Festival 79 - É Hora de Cantar da TV Tupi. Mesmo morando no Rio de Janeiro, Brasília teve forte influência sobre autor, foi objeto de canções como Pra Longe do Paranoá (1979), Léo e Bia (1979), Coisas de Brasília (1981), Janelas de Brasília (1997).

https://open.spotify.com/track/1HWfUGHBuK6xypIQw4Kneq?si=b42ec2d619374292

Pra Longe do Paranoá

Numa tarde quente eu fui me embora de Brasília

Num submarino do lago Paranoá

Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando

Madalena na beira do mar

Qualquer dia, mãe, você vai ter uma surpresa

Vendo na TV meu peito quase arrebentar

Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando

Madalena na beira do mar

Quem quiser que faça o velho jogo da política

Na sifilítica maneira de pensar

Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro namorando

Madalena na beira do mar

Eu tenho o coração vermelho

E o que eu canto é o espelho do que se passa por lá

Lá no Rio e Janeiro namorando Madalena na beira do mar

Léo e Bia

No centro de um planalto vazio

Como se fosse em qualquer lugar

Como se a vida fosse um perigo

Como se houvesse faca no ar

Como se fosse urgente e preciso

Como é preciso desabafar

Qualquer maneira de amar varia

E Léo e Bia souberam amar

Como se não fosse tão longe

Brasília de Belém do Pará

Como castelos nascem dos sonhos

Pra no real, achar seu lugar

Como se faz com todo cuidado

A pipa que precisa voar

Cuidar de amor exige mestria

E Léo e Bia souberam amar

Canção Léo e Bia aparece nos álbuns de estúdio de Oswaldo do final dos anos setenta. A história foi transformada em um musical que se passa em 1973 e conta a história de sete jovens que em Brasília, no auge da ditadura militar, resolvem viver de arte.

Canção Léo e Bia aparece nos álbuns de estúdio de Oswaldo do final dos anos setenta. A história foi transformada em um musical que se passa em 1973 e conta a história de sete jovens que em Brasília, no auge da ditadura militar, resolvem viver de arte.

Imagem de apresentação em concerto retirada de livro fotográfico desenvolvido por Nick Elmoor sobre o movimento cultural Cabeças.

Imagem de apresentação em concerto retirada de livro fotográfico desenvolvido por Nick Elmoor sobre o movimento cultural Cabeças.

O Projeto Cabeças